O LEÃO APAIXONADO

A marquesa de Sévigné* era de uma beleza rara. E estava tão acostumada a ser cortejada, que o fato de até um leão apaixonar-se por ela não era de estranhar.

No tempo em que os animais falavam, era comum que eles ambicionassem fazer parte do convívio humano. Afinal, tal qual os humanos, eles também tinham inteligência, força, coragem e até se comunicavam usando o mesmo código dos homens.

Foi nessa época que o leão apaixonou-se pela bela senhorita Sévigné e, sem demora, pediu-a em casamento.

O pai da jovem assustou-se. Ele queria para a filha um marido um pouco menos terrível, mas temia que uma recusa pudesse apressar um casamento clandestino. Com sua experiência, ele sabia que o fruto proibido tem sempre um paladar melhor.

Resolveu então aceitar a proposta do leão e disse a ele:

- Agrada-me a idéia de tê-lo como genro, mas preocupa-me o fato de que você machucará o corpo delicado de minha filha com suas garras, e, ao beijá-la, os seus dentes impedirão que ela lhe corresponda com prazer.

E o leão apaixonado permitiu que lhe cortassem as garras e lhe lixassem os dentes.

Sem garras e sem dentes, sua fortaleza foi destruída e um bando de cães o atacou, sem que ele conseguisse se defender.

Ah! A paixão! Feliz daquele que escapa dos seus ardis!


*La Fontaine, nesta fábula, faz uma homenagem à beleza da marquesa de Sévigné, Marie de Rabutinchantal, escritora francesa cujas cartas são modelo de gênero epistolar.


Fábulas de Jean de La Fontaine

MORAL DA HISTÓRIA:

Quando estamos apaixonados por alguém, no primeiro momento, vivemos um estado de satisfação altamente gratificante. O sentimento pode se tornar tão forte que o resto do mundo perde o significado. Nossa existência passa a ter um novo sentido porque percebemos que alguém precisa de nós e nos faz sentir especial, além de provocarmos igualmente as mesmas sensações no outro, o que faz com que os dois se sintam completos. Ficamos viciados na outra pessoa, que age sobre nós como uma droga. De início, perdemos a própria dignidade pessoal em troca desta viciação que nos traz sensações prazerosas. Mas diante de uma possibilidade qualquer, ainda que remota, de que ela não esteja mais ali, ao nosso inteiro dispor, podemos chegar ao desespero, ao ciúme e às incriminações. E tentamos manipulá-la através de chantagem emocional que, no fundo, nada mais é que o medo da perda. Onde é que está a paixão agora? Será que ela pode passar de um estado a outro em minutos? Será que era amor real ou um vício, uma dependência? A paixão e a prudência, quase sempre, andam separadas, são incompatíveis. Quando a paixão se aproxima, a precaução se afasta. A fábula mostra que o homem que se priva daquilo que lhe proporciona a autovalorização ou a auto dignidade torna-se frágil presa e fica exposto ao fracasso diante daqueles que antes o respeitavam.

REFLEXÕES SOBRE ESTA FÁBULA E O EVANGELHO:

" ... É, pois, evidente, que o homem é o autor da maior parte das suas aflições, e que delas se pouparia se agisse sempre com sabedoria e prudência." (ESE, cap. 27, item 12.)

" ... a sabedoria vale mais que as pérolas e jóia alguma a pode igualar. Eu, a sabedoria, sou amiga da prudência, possuo uma ciência profunda." (Provérbios, 8:11 e 12.)


10 comentários:

NANDO DAMÁZIO disse...

Tadinho do Leão, a paixão foi seu algoz, como sempre acontece com todos nós !!

A imprudência é o maior pecado dos apaixonados !!

Carol disse...

Nando
Pelo que vejo vc é do tipo que vive o amor intensamente!(?)
Mas vale a pena ser um amante Leão? Ou vc não é um Leão?

O assunto da semana é esse, vãos viver o amor!!!!!

Bj!

Du disse...

Gostei do fábula, triste e verdadeira!

Carol disse...

"FALAI DU, QUAL VERDADE?

Du disse...

Ok Cacau...vou te explicar a "verdade" com um texto do Mário que eu li no ano passado e nunca esqueci,porque foi uma das coisas mais perfeitas que eu já li na vida tá?

"A paixão tem raízes na atração física.
O amor se funda na afinidade espiritual.
A paixão é satisfação dos sentidos.
O amor é compreensão fraterna.
A paixão é doença da alma.
O amor é compromisso afetivo.
A paixão é expressão do egoísmo.
O amor é doação recíproca.
A paixão é vício.
O amor é virtude.
A paixão aprisiona.
O amor liberta.
A paixão adoece.
O amor cura.
A paixão destrói.
O amor constrói.
A paixão enlouquece.
O amor enobrece e dignifica.
A paixão é coisa da Terra.
O amor é coisa de Deus.
Paixão é escravidão mental de um ser exercida sobre o outro, comumente marcada pela intransigência, indiferença e desejo de aprisionamento emocional.
O amor traduz-se em renúncia, confiança recíproca, respeito mútuo e elevação da alma.
A paixão carece apenas da conjunção de interesses comuns para a satisfação dos desejos carnais, bem como das necessidades físicas e materiais, sem qualquer outro objetivo digno de nota.
Amar, entretanto, demanda cuidados efetivos de um ser pelo bem estar físico, emocional e espiritual do outro com o nítido propósito de progresso conjunto.
Por onde a paixão passa sobram rastros de dor, tristeza e arrependimento posterior.
O amor transita em plano mais elevado. Perdura no tempo qual o perfume das flores que enfeitam os jardins da vida.
A paixão necessita da presença física do ser desejado.
O amor, todavia, por suas características celestes, dispensa tal materialização.
Os senhores da guerra foram extremamente apaixonados pelo mundo. A seu tempo, enlouquecidos em nome da paixão, o destruíram, ceifando inúmeras vidas.
Jesus, no entanto, amou intensamente ao mundo, renunciando a si mesmo até que, em nome do amor, perdeu a própria vida numa cruz infame. Bem por isso, seus princípios imortais transformaram as concepções humanas então vigentes. Ainda hoje, ultrapassados mais de dois mil anos da sua chegada ao planeta, o seu incomensurável amor ilumina a Terra."

(Esse texto você encontra aqui:http://apoiofraterno.wordpress.com/2007/11/07/paixao-e-amor-2/)

Entendeu agora, Cacauzinha?

NANDO DAMÁZIO disse...

Carol, o amor só é Amor mesmo quando vivido intensamente .. Se não for com intensidade, não é Amor .. Empolgação é coisa que dá e passa !!

Beijo, Carolzinha !!

NANA disse...

O Leão perdeu sua identidade. Eu quase perdi a minha... Ah, essas paixões...


Beijinhos Carol

Anselmo disse...

Adrei essa fábula em especial a parte em que fala da moral da história.
Com certeza são mais que belas palavras e sim grandes ensinamentos de vida.
Parabéns e abraços !

Carol disse...

Nando, Du, Nana e Anselmo
Os comentários estão bárbaros, continuemos a analise da fábula em nossas vidas!
Beijo.

Anônimo disse...

amigos, o que ele quiz dizer com cortar unas e arrancar dentes? não entendi essa parte até agora.