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Segue reproduzido abaixo trecho do discurso proferido por Alan Kardec em novembro de 1868 sobre o tema "O Espiritismo é uma religião?".

"Crer em um Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificativa do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente na perfeição; na eqüitativa remuneração do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no livre arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível, na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados, considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da Vida do Espírito, que é eterno; aceitar corajosamente as provações, tendo em vista o futuro mais invejável do que o presente; praticar a caridade em pensamentos, em palavras e em ações na mais ampla acepção da palavra; se esforçar cada dia para ser melhor do que na véspera, extirpando alguma imperfeição de sua alma; submeter todas as suas crenças ao controle do livre exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas diferentes descobertas da ciência a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode se conciliar com todos os cultos, quer dizer, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os Espíritas em uma santa comunhão de pensamentos, à espera que una todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.

Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz, se poupando os males inumeráveis que nascem da discórdia, filha, a seu turno, do orgulho, do egoísmo, da ambição, do ciúme e de todas as imperfeições da Humanidade.

O Espiritismo dá aos homens tudo o que é preciso para sua felicidade neste mundo, porque lhes ensina a se contentarem com aquilo que têm; que os Espíritos sejam, pois, os primeiros a aproveitarem os benefícios que ele traz, e que inaugura entre eles o reino da harmonia, que resplandecerá nas gerações futuras.

Os Espíritos que nos cercam aqui são inumeráveis, atraídos pelo objetivo que nos propusemos em nos reunindo, a fim de darem aos nossos pensamentos a força que nasce da união.

Doemos àqueles que nos são caros uma boa lembrança e um testemunho de nossa afeição, os encorajamentos e as consolações àqueles que deles têm necessidade. Façamos de maneira que cada um receba a sua parte dos sentimentos de caridade benevolente, da qual estaremos animados, e que esta reunião traga os frutos que todos estão no direito de esperá-los."

SABER ESPÍRITA

O conhecimento espírita é um conhecimento de tríplice aspecto. Está fundamentado na Ciência, edifica-se na Filosofia e evidencia-se na prática. É a prática, coerente com a filosofia, o carácter fundamental da religião espírita. A religião espírita não se mostra no culto realizado no templo, mas como expressão de viver, como atividade prática, exercício de vida, na coerência entre saber e agir, um mecanismo profundo de sentir e experiência a vida. O não entendimento deste aspecto tríplice do Espiritismo tem levado alguns a posições extremadas e atitudes incoerentes com a essência da Doutrina Espírita. A tendência eminentemente religiosa ou a pura especulação filosófica ou ainda a fria pesquisa científica são aspectos isolados que não possuem a coerência que o Espiritismo lhes dá. A estrutura de conhecimento do Espiritismo é uma proposta de educação integral para personalidade humana.

Uma dimensão do conhecimento que não pode ser desprezada pelo Espiritismo é a Arte. Como mecanismo de conhecimento e vivência, a arte desperta realidades para a alma de maneira inexprimível em argumentos lógicos. Kardec preocupava-se com a questão. Encontramos em Obras Póstumas as seguintes afirmações a respeito do assunto:


"Assim como a arte cristã sucedeu à arte pagã, transformando-a, a arte espírita será o complemento e a transformação da arte cristã" 63

"Sem dúvida, o Espiritismo abre à arte um campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado." 64


De fato, a opinião de Kardec vai até aí: esta profunda influência que o Espiritismo teria sobre a Arte. Sua opinião é de que a Filosofia Espírita erigiria uma Arte Espírita, mas como uma demonstração descritiva. Entretanto, a simples preocupação com o caso, por parte do Codificador do Espiritismo, deixa-nos ainda mais à vontade para apontar a Arte como um dimensão extra para a Natureza do conhecimento espírita. Ciência, Filosofia, Religião e Arte seriam, pois, aspectos de percepção para tornar o Espírito educado para a realidade da vida.


A proposta de educação integral que o Espiritismo vem apresentar à humanidade pretende colocá-la no plano do desenvolvimento de todas as potencialidades para uma íntima integração do ser consigo, com o próximo e com Deus. Mas essa integração não é apenas de carácter racional; é também de conotação profundamente afetiva. 65





CITAÇÕES:


63
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. FEB. 22ª ed. Rio de Janeiro. 1987. pg.158.
64
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. FEB. 22ª ed. Rio de Janeiro. 1987. pg.158.
65
- Em Setembro de 1993, tivemos a oportunidade de trocar idéias com um companheiro das lides espíritas, o Dr. André Luiz Peixinho, que, na ocasião, nos apresentou a Arte como um elemento adicional à natureza do conhecimento espírita. Na época, o confrade nos apresentou o modelo, que reproduzimos abaixo, sobre as percepções do homem.

Texto: CEC – COMUNHÃO ESPÍRITA CRISTÃ


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O que é uma Doutrina?


- Doutrina é um conjunto de princípios que servem de base para um sistema de idéias. O direito, por exemplo, é baseado em princípios doutrinários como aquele que afirma: “todos são iguais perante a lei”, ou “não se deve penalizar o mesmo réu duas vezes pela mesma falta”.


O Espiritismo é o conhecimento e a prática dos princípios da Doutrina dos Espíritos que as pessoas conseguem entender e aplicar no seu dia a dia.


Estes princípios são, Deus como o fundamento do fundamento da vida; Jesus como exemplo de comportamento; reencarnação como oportunidade de voltar ao polisistema material para aplicar e ampliar o conhecimento; o livre arbítrio como meio de permitir o aprendizado da liberdade com responsabilidade e a mediunidade como meio de comunicação entre o polisistema material e o polisistema espiritual.


Quanto mais estudamos, mais compreendemos que a Doutrina dos Espíritos faz parte do existente. Allan Kardec fez uma enorme contribuição para com a humanidade ao descobrir e registrar seus princípios.


Entendemos que a Doutrina dos Espíritos não está pronta, pois o conhecimento se expande continuamente. O estudo da Doutrina dos Espíritos em torno dos eixos; filosofia, ciência e religião nos permite tecer a unidade do conhecimento de forma transdiciplinar e ir compreendendo os seus princípios e suas relações de causa e efeito.


A Doutrina dos Espíritos quer ajudar o ser a revelar-se a si mesmo.



Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas

Inúmeros candidatos ao conhecimento das informações espíritas - portadoras dos relevantes mecanismos para a reforma íntima - detêm-se, inconseqüentes, na expectativa de milagres, que os não há, para a solução de problemas que eles próprios criaram e continuam gerando, ou esperam que a simples adesão formal a uma Sociedade, onde se divulga o Espiritismo, é suficiente para plenificá-los.

Fixados ao atavismo do maravilhoso e do sobrenatural, perseveram na crença leviana de que os Espíritos desencarnados tudo sabem, tudo podem , com a missão expressa de resolver as dificuldades humanas, desse modo, candidatando as criaturas à ignorância e ao atraso.

Acostumados às notícias extravagantes do misticismo que envolve a mediunidade e dos tabus em torno das comunicações espirituais, negam-se ao estudo sério, ou intentam-no, logo o abandonando, apoiados às bengalas psicológicas do comodismo de que lhes parece difícil a absorção do conhecimento espiritual, seja pela impossibilidade de manter a atenção, ou por deficiência de memória, ou ainda por perturbações de vária ordem, que afligem, adormecem, incomodam.

A argumentação simplista não procede, porquanto, em outras áreas do comportamento, seja no trabalho, no relacionamento interpessoal, nas pesquisas e cursos, se não houver um sincero interesse e legítima dedicação, ocorrem os mesmos fenômenos perturbardores, desestimulantes.

Toda experiência nova é desafio, caracterizado por dificuldades, superáveis, que mais despertam os valores morais de quem a deseja vivenciar. No que diz respeito àquelas de complexidade profunda, quais as de transformação do homem velho em um novo ser, os patamares a conquistar são múltiplos, revestidos de compreensíveis impedimentos.

Não se alteram hábitos doentios, perniciosos, de um momento para outro, com apenas a disposição, sem o correspondente esforço para consegui-lo.

A transformação interior para melhor, que o conhecimento espírita propicia, é precedida de um necessário despertar para a aceitação de novos e preciosos valores morais, que satisfazem e harmonizam a criatura.

Desse modo, ao desejo de crescimento, devem aliar-se o esforço contínuo e o devotamento às idéias renovadoras, trabalhando-se por entender as diretrizes que se lhe apresentam, experimentando e insistindo na sua implantação no mundo íntimo.

A vitória de qualquer tentame chega após a permanência na sua execução.

*

Substitui, mediante as informações libertadoras do Espiritismo, os velhos hábitos, um a um, adotando novo comportamento mental, e, depois, vivencial, a fim de que a renovação se te faça contínua, incessante.

Fixa-te no propósito de vencer os velhos condicionamentos e adota as propostas de ação positiva, que te auxiliarão no crescimento íntimo.

Liberta-te dos instrumentos frágeis de justificação, evitando as fugas psicológicas à realidade, à responsabilidade.

Insiste na lapidação das arestas grosseiras da personalidade e adapta-te ao novo modo de entender e ser, incorporando à conduta as diretrizes espirituais.

Dar-te-ás conta dos benefícios imediatos que advirão, das soluções aos problemas que surgirão, enfim, de que o empenho se coroa de êxito na razão direta do esforço encetado.

*

Não foi fácil a Simão Pedro transferir-se do mar da Galiléia, onde pescava com simplicidade, para a experiência difícil no oceano tumultuado da humanidade...

Foi grandemente dolorosa a transferência psíquica, emocional e humana de Saulo de Tarso, da exaltação judaica e da opulência do Sinédrio, bem como de uma família abastada, para a atividade áspera de artesão e apóstolo de Jesus...

Maceradora foi a conduta da equivocada de Magdala, ao adotar as lições do Mestre como regra de iluminação íntima, que conseguiu a duras penas...

A História está repleta de heróis da transformação para melhor, que todos respeitam, porém, são incontáveis os conquistadores anônimos do continente da alma, que estavam perdidos e se encontraram.

O Espiritismo hoje, revivendo Jesus ontem, oferece os valiosos esclarecimentos para a felicidade, a auto-descoberta, a iluminação íntima libertadora.

Para consegui-lo é, primeiro, necessário despertar.

* * *

Franco, Divaldo Pereira. Da obra: Momentos Enriquecedores.
Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis.
Salvador, BA: LEAL, 1994.




As práticas espíritas ficaram em uso durante vários séculos. Quase todos os filósofos alexandrinos, Filo, Amônio Saccas, Plotino, Porfírio, Arnobe, se diziam inspirados por gênios superiores; São Gregório, taumaturgo, recebeu os símbolos da fé do Espírito de São João. Santo Agostinho, o grande bispo de Hippone, em seu tratado De Curâ pro mortuis, fala das manifestações ocultas e acrescenta: « Por que não atribuir essas operações aos espíritos dos defuntos e não crer que a divina Providência fez um bom uso de tudo para instruir os homens, os consolar, os maravilhar ?


Na Idade Média, as perseguições da Igreja contra os « heréticos » sufocaram a comunicação com o mundo invisível mas a tradição se conserva: pode-se segui-la na história com os nomes de Paracelso, Cornélio Agripina, Swedenborg, Jacob Boehm, Martinez Pascalis, o conde de Saint-Germain, Saint-Martin, os possessos de Loudun, os medrosos de Cévennes e os crisíacos do cemitério Saint-Médard.

Nenhum testemunho da intervenção dos Espíritos na vida dos povos é comparável à história tocante da virgem de Domrémy. No início do século XIV, a França agonizava sob o pé de ferro dos Ingleses. Com a ajuda de uma jovem moça, de uma criança de dezoito anos, as potências invisíveis reanimaram um povo desmoralizado, revelando seu patriotismo extinto, inflamando a resistência e salvando a França da morte. Joana nunca agia sem consultar suas vozes, e, seja sobre os campos de batalha, seja ante seus juízes, sempre elas inspiraram suas palavras e seus atos.


De mais, se reencontra a comunicação com os Espíritos através dos feiticeiros ou dos xamãs entre os numerosos povos da América, da Ásia, da Oceania e da África.


-- XXX--


Não obstante, o Espiritismo não é uma descoberta moderna. Os fatos e os princípios, sob os quais ele repousa, se perdem na noite dos tempos, pois seus traços se acham nas crenças dos povos, em todas as religiões, na maior parte dos escritores sacros e profanos. Apenas que, incompletamente observados, os fatos foram freqüentemente interpretados conforme as idéias supersticiosas da ignorância e sem que dos mesmos tivessem sido deduzidas todas as conseqüências.


O que há de moderno é a explicação lógica dos fatos, o conhecimento mais completo da natureza dos Espíritos, de sua missão e de seu modo de agir; a revelação do nosso estado futuro e, enfim, a constituição dele num corpo científico e doutrinário e suas múltiplas aplicações. Os antigos conheciam o princípio; os modernos conhecem as minúcias. Na Antigüidade o estudo desses fenômenos era privilégio de certas classes, que só o revelavam aos iniciados nesses mistérios; na Idade Média os que com ele se ocupavam ostensivamente eram tidos como feiticeiros e queimados vivos; hoje, porém, já não há mais mistérios para ninguém, ninguém é queimado, tudo se faz à luz meridiana e todo o mundo está disposto a instruir-se e praticar. Porque em toda parte se encontram médiuns e cada um pode sê-lo mais ou menos.


A doutrina hoje ensinada pelos Espíritos nada tem de novo; seus fragmentos são encontrados na maior parte dos filósofos da Índia, do Egito e da Grécia, e se completam nos ensinos de Jesus Cristo. A que vem, pois, o Espiritismo ? Vem confirmar com novos testemunhos e demonstrar com os fatos, verdades desconhecidas ou mal compreendidas e restabelecer em seu verdadeiro sentido aquelas que foram mal interpretadas ou deliberadamente alteradas.


O que é certo é que nada de novo ensina o Espiritismo. Mas será pouco provar de modo patente e irrecusável a existência da alma, sua sobrevivência ao corpo, sua individualidade após a morte, sua imortalidade, e as penas e recompensas futuras?

(Allan Kardec – O que é o Espiritismo – Introdução)


É bom anotar:

  • As manifestações dos Espíritos sempre existiram, em países e épocas diferentes.
  • As manifestações dos Espíritos estão na base das religiões.


Portal do Espírito
Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec




Entre os Romanos, as práticas de evocação estavam excessivamente disseminadas, e, depois da fundação do império, o povo depositava grande fé nos oráculos. As sibilas romanas, evocando os mortos, interrogavam os Espíritos e eram consultadas sem cessar pelos generais, e nenhum empreendimento mais ou menos importante era decido sem que se tivesse de tomar o conselho preliminar dessas sacerdotisas.



Na Gália, os Druidas se comunicavam com o mundo invisível, milhares de testemunhas o atestam. Evocavam-se os mortos nos recintos de pedra. As Druidesas transmitiam os oráculos. Vários autores relatam que Vercingétorix se entretinha com as almas dos heróis mortos pela pátria. Antes de sublevar a Gália contra César, ele se deteve na Ilha de Sena, antiga morada das Druidesas. Lá, um gênio lhe apareceu e lhe predisse sua derrota e seu martírio.


Entre os primeiros cristãos, nos Atos dos Apóstolos, encontram-se numerosas indicações quanto às comunicações com os espíritos dos mortos. São Paulo em sua primeira epístola aos Coríntios, descreve sob o nome de dons espirituais, todos os gêneros de mediunidade. Ele se declara diretamente instruído, pela Igreja de Jesus, na Verdade evangélica. Tributou-se, por vezes, essas inspirações aos maus Espíritos, à quem alguns chamavam de o Espírito de Píton: « Meus bons amigos, dizia João, não creiam em todos os espíritos, mas verifiquem se os espíritos são de Deus
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A mediunidade sempre existiu, porque o homem sempre teve um Espírito. Assim as comunicações com os Espíritos tiveram lugar em todas as épocas e em regiões diversas, os fatos mediúnicos são tão antigos quanto a aparição do homem e os fenômenos de obsessão têm sido observados desde sempre.


Na Índia, encontra-se nos Vedas, que é o mais antigo código religioso que se conhece e que foi escrito vários milhares de anos antes de Jesus Cristo, a crença na existência dos Espíritos. O grande legislador Manou se exprime assim: «Os Espíritos dos ancestrais, no estado invisível, acompanham certos Brahmas; sob uma forma aérea, eles os seguem e tomam lugar ao seu lado quando se sentam.» (Manou, Slocas, 187, 188, 189).

Um outro autor hindu declara: « Algum tempo antes de se despojarem de seu envelope mortal, as almas que não praticaram senão o bem adquirem a faculdade de conversar com as almas dos que os precederam. »

Na China, desde tempos imemoriais, já se entregavam à evocação dos espíritos dos ancestrais.

No Egito, os magos dos faraós realizavam prodígios que são contados na Bíblia; deixando de lado tudo aquilo que pode haver de legendário nessas narrações, é certo que evocavam os mortos. Desde Moisés, seu discípulo, foi proibido formalmente aos Hebreus se entregarem à essas práticas: « Que, entre vós, ninguém use do sortilégio e de encantamentos ou interrogue os mortos para aprender a verdade. » (Deuteronômio).

Entre os hebreus, malgrado essa proibição de Moisés, vemos Saul consultar a pitonisa de Endor e, por seu intermediário, comunicar-se com a sombra de Samuel. De mais, sempre houve pesquisadores que foram tentados por essas evocações misteriosas: eles comunicavam uns aos outros uma doutrina secreta, que denominavam Cabala.

Na Grécia, a crença nas evocações era geral. Os templos possuíam todos, mulheres, denominadas pitonisas, encarregadas de receber os oráculos evocando os deuses. Homero, na Odisséia, descreveu minuciosamente as cerimônias pelas quais Ulisses podia conversar com a sombra do adivinho Tirésias. Apolônio de Tianá, sábio filósofo pitagórico e taumaturgo de grande poder, possuía conhecimento muito extenso sobre as ciências ocultas; sua vida é repleta de fatos extraordinários; ele acreditava firmemente nos Espíritos e em suas possíveis comunicações com os vivos.

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É na combinação destes dois elementos, INTELIGENCIA E MORAL que se baseará a sociedade do futuro. E o Espírito da Verdade já nos fala, em sua resposta à questão 930 do L.E., que numa sociedade organizada pela lei do cristo, ninguém deverá morrer de forme, ou seja, quando este mundo chegar, será bastante diferente do que temos hoje. Já a interpretação espírita do Evangelho evita que este vá a extremos, tanto de um lado quanto outro, não chega no intelectualismo inócuo e evita o evangelismo improdutivo.

A moral do Evangelho, no que ela tem de mais límpido e perene, em todas as latitudes, desde que seja vivida e não apenas sabida de cor, é o mais seguro ponto de apoio para que o homem se torne melhor e mais feliz. Assim, segundo o espiritismo, o Evangelho não é apenas um tratado de fé, um conceito ou idéia para conversa e discussão, mas um modo de vida, motivo de ação regeneradora. Respeitamos o que não pensam dessa forma, mas temos o direito de pensar como queremos. Na verdade, entre aqueles que se dizem cristãos não deveria haver conflito, pois a moral de Jesus se resume no amor ao próximo, preconizado no seu mandamento maior.

Três fatores levam o Espiritismo ao Evangelho:

  • Cultura ocidental, que é mais cristianizada. Existem outros códigos morais de excelente qualidade em outras culturas, mas onde surgiu o espiritismo, a maioria é cristão, assim é mais fácil para todos compreende-la. Ademais nenhum outro sistema tem a envergadura moral fornecida por Jesus.
  • Os espíritos assim dirigiram. Mesmo que se desejasse seguir outras linhas morais, os próprios espíritos que criaram a doutrina direcionaram-na ao cristianismo. Eles sabiam o que faziam.
  • É dinâmica, assim como o próprio Espiritismo. Ela combina direitinho com o espiritismo porque sua essência é de trabalho. Não há resultado sem ação. Assim o é com o Espiritismo.

Quais são os pontos concordantes entre o evangelho e a doutrina.

Primeiramente a existência de Deus. A questão 1 do L.E. inicia perguntando o que é Deus. E a resposta é que Ele é a causa primária de todas as coisas. Quando perguntaram a Jesus qual o maior mandamento, ele começou dizendo o primeiro mandamento da lei de Moisés, "Amarás ao teu Deus de todo coração e todo entendimento" (Mateus XXII:34-40). Também se refere sempre a "Meu Pai que está no céu".


A imortalidade da alma é outro ponto concordante. Nas questões 23 a 29 do L.E., Kardec questiona diversos aspectos sobre o espírito e a alma, as quais são respondidas pelo espírito da verdade como princípio inteligente do universo, e que conserva sua individualidade depois da morte, ou seja, depois de desencarnado a alma é a mesma que quando encarnada. Jesus prega o mesmo conceito ao dizer que para alcançar o reino de Deus é necessário nascer de novo (João III:1-12). E para nascer de novo é preciso que a alma tome forma em novo corpo, dessa forma ela se preserva, é imortal.


Mais um, é a vida futura. Nas questões 149 a 153, Kardec discute a natureza da alma e seu destino, ali fica claro que após a morte, o espírito continua como é, e que procura, algum tempo depois, novo corpo, para poder aprender, até chegar à perfeição. A passagem anteriormente mencionada já ilustra este ponto, ao dizer que é preciso nascer de novo. Mas Jesus vai mais além, quando está sendo julgado perante Pôncio Pilatos, diz que seu reino não é desse mundo (João XVIII:33-37), ilustrando-nos com a idéia que existe muito mais além dessa vida, e que é esse reino que devemos procurar.


O Evangelho prega: "A cada um segundo suas obras" (Lucas XII:47-48), é condicional, portanto, à atitude do indivíduo. Não basta crer em Jesus, devemos fazer o que ele nos mandou. O espiritismo concorda e amplia isso, o capítulo II do livro IV do L.E. fala das penas e gozos futuros, onde ele define que tudo o que recebemos hoje, é conseqüência de nossos atos no passado, e que tudo o que iremos receber no futuro, é conseqüência de nossos atos de agora em diante.


O Evangelho prega: "Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas esses coisas vos serão acrescentadas" (Mateus VI:33). Quem procede com justiça, honestidade e respeito às leis de Deus pode viver em paz com sua consciência e com o mundo. O espiritismo repete isso ao dizer que é necessária a reforma íntima, na qual procuramos corrigir nossos defeitos, é a tal procura do reino de Deus, estas idéias são apresentadas no L.E. cap. XII livro III. As coisas que nos são acrescentadas não são necessariamente materiais, mas principalmente a paz de espírito e o ânimo para continuar nossa vida, sabendo que com nossos atos estamos plantando para um futuro melhor.


Ensina Jesus: "Buscai e achareis" (Mateus VII:7-11). Para que se ache algo é preciso esforço procurando, se nada fizermos, nada acontece. Na questão 674 do L.E. vemos na resposta: "O trabalho constitui uma necessidade". Assim vemos que não são aceitas atitudes contemplativas, mas ações concretas. É preciso sair a campo, tentar, errar, falhar, mas atuar, quem atua, mesmo que erre muito, consegue mais do que quem não faz nada, este pode não cometer erros, mas também não obtém vitórias. Deus premia apenas aquele que faz por merecer.


Recomenda Jesus: "Pedí e obtereis" (Marcos XI:24). Jesus falava aqui do valor da prece, da oração para Deus, mas é preciso saber pedir. No L.E., pergunta 660 temos a resposta: "O essencial não é orar muito, mas orar bem", orar com justiça e sinceridade, sabendo pedir, não absurdos ou coisas materiais, mas forças para superar as provas e problemas da vida.


Sobre o aprimoramento pessoal, Jesus disse: "Sede perfeitos" (Mateus V:48). Jesus dizia-nos que deveríamos procurar a perfeição, tendo como objetivo principal alcançar a Deus e estar a seu lado. No E.S.E., Cap. XVII item 3 temos aquela que considero a mais bela passagem de toda a codificação, onde se descreve ali os caracteres do homem de bem. Por esta descrição vemos que ele está sempre à procura da perfeição, como ordenou Jesus.

Cristianismo e Espiritismo são uma coisa só. O primeiro veio trazer a base da moral dos homens, o segundo veio explicar como usar esta moral para se aprimorar e ser melhor. Muito há para aprender. Ainda hoje discutimos essa moral, tentando entende-la. No fundo, devemos ter sempre em mente o exemplo de vida de Jesus, que não apenas falava, mas fazia, mostrava. Procuremos seguir seus passos e suas palavras, tornando-nos mais cristãos, contando com todo o apoio do Espiritismo.

Por Ednilsom Montanhole


Quando Jesus esteve entre nós, pregou, ensinou, operou milagres, andou sobre águas, ressuscitou mortos, foi julgado, condenado e crucificado. Nunca escreveu nenhuma palavra, nunca pintou ou construiu nada. Seu legado foram suas idéias. E se hoje, contamos o ano de 2008 de seu nascimento, é porque sentimos que estas idéias eram importantes, que tinha algo mais ali além de palavras. E lutamos para compreende-las até hoje. O Espiritismo é o Consolador prometido, enviado para auxiliar na compreensão das idéias de Jesus. Este é o tema que falaremos hoje, Cristianismo e Espiritismo, a ligação que há entre eles e a forma como este último auxilia o primeiro.

O que sabemos sobre Jesus, está basicamente nos Evangelhos, a parte do Novo Testamento da Bíblia. Como já foi dito, Jesus nunca escreveu nada enquanto esteve vivo. Também nenhum de seus discípulos pensou em anotar tudo o que ele dizia na mesma hora. Suas idéias e conceitos foram transmitidos de boca em boca por mais de 50 anos, quando então o primeiro dos Evangelhos, o de Marcos, foi colocado, parcialmente, no papel. Naquele tempo os judeus viviam tempos difíceis com os romanos, tentaram expulsa-los de suas terras, e o resultado foi o contrário, os romanos é que os expulsaram. É a diáspora, quando eles de dispersam por toda a Europa. Apenas este século é que conseguiram se juntar de novo. Por causa disso, havia muito ressentimento no ar, e em diversos trechos, este é o tom do evangelho de Marcos. Em seguida vieram os de Mateus e Lucas, já quase no final do século I, finalmente veio o de João. Todos eles começaram pequenos, e foram sendo acrescentados de outros textos, pouco a pouco. Na mesma época surgiram diversas outras narrativas, hoje se conhecem mais de vinte. Lucas, no primeiro versículo de seu evangelho nos fala "Tendo por muitos empreendido a missão de por em palavras o que Jesus trouxe até nós", demonstrando aqui que ele não estava só. Os apóstolos originais apenas pregavam, transmitiam de boca em boca, os que escreveram, apenas reproduziram o que ouviram. Claro que nenhum deles ficou ao lado dos apóstolos o tempo todo, de modo que cada um destes textos traz uma parte do conjunto. No século III, os líderes da igreja quiseram criar um texto único para se basearem, assim foi designado um relator, conhecido hoje como São Jerônimo, ele pegou tudo o que havia sido escrito, selecionou o que julgava correto e criou o que chamou-se de Vulgata, ou texto comum a todos os outros. O resto foi considerado apócrifo, e desprezado.
Assim, vemos que muito do que temos hoje, foi mudado, não por má fé, mas simplesmente porque foi transmitido de boca em boca, parcialmente, sem uma base comum, de modo que temos um texto cheio de informações contraditórias quanto aos atos de Jesus, aos milagres, às profecias e às palavras que serviram de estabelecimento aos dogmas. Mas há um ponto comum e pacífico a todos os que se dizem cristãos, que é a sua moral. O ensino moral de Jesus não é discutível, pois ele está mesmo acima da moral dos homens. O Espiritismo vem fortalecer o Evangelho, porque este foi contado na forma de parábolas, estórias, que causaram dúvidas e mal entendimentos.
Quando Kardec iniciou a codificação da doutrina, sabia que uma parte dela seria baseada em conceitos morais, pois havia sido avisado disso. Mas que moral seria essa, uma nova ? não. A moral Espírita é a moral do Evangelho. Não era preciso nenhuma outra, quando Kardec pergunta, na questão 625 do L.E. qual o modelo maior de moral a ser seguido, a resposta é simples e direta: "Jesus". Assim, nada mais nos resta então do que tentar entender o que Jesus nos disse, agora à luz das explicações da Doutrina, e aplicar. Quanto aos outros aspectos dos evangelhos, o Espiritismo abstém-se de dar qualquer opinião, pois são por demais controversos. Claro que se pode estudar estas diferenças, estudar e compreender de onde elas vêm é sempre bom, mas deve-se lembrar sempre que é no progresso moral que residem as maiores conquistas da alma do homem, estas só são obtidas pela prática dessa moral.

Continua...


p/Ednilsom Montanhole

O Espiritismo não celebra a Páscoa, mas respeita as manifestações de religiosidade das diversas igrejas cristãs, e também não proíbe que seus adeptos manifestem sua religiosidade.
Páscoa, ou Passagem, simboliza a libertação do povo hebreu da escravidão sofrida durante séculos no Egito, mas no Cristianismo comemora a ressurreição do Cristo, que se deu na Páscoa judaica do ano 33 da nossa era, e celebra a continuidade da vida.

O Espiritismo, embora sendo uma Doutrina Cristã, entende de forma diferente alguns dos ensinamentos das Igrejas Cristãs. Na questão da ressurreição, para nós, espíritas, Jesus apareceu à Maria de Magdala e aos discípulos, com seu corpo espiritual, que chamamos de perispírito. Entendemos que não houve uma ressurreição corporal, física. Jesus de Nazaré não precisou derrogar as leis naturais do nosso mundo para firmar o seu conceito de missionário. A sua doutrina de amor e perdão é muito maior que qualquer milagre, até mesmo a ressurreição.

Isto não invalida a Festa da Páscoa se a encararmos no seu simbolismo. A Páscoa Judaica pode ser interpretada como a nossa libertação da ignorância, das mazelas humanas, para o conhecimento, o comportamento ético-moral. A travessia do Mar Vermelho representa as dificuldades para a transformação. A Páscoa Cristã, representa a vitória da vida sobre a morte, do sacrifício pela verdade e pelo amor. Jesus de Nazaré demonstrou que pode-se Executar homens, mas não se consegue matar as grandes idéias renovadoras, os grandes exemplos de amor ao próximo e de valorização da vida.

Como a Páscoa Cristã representa a vitória da vida sobre a morte, queremos deixar firmado o conceito que aprendemos no Espiritismo, que a vida só pode ser definida pelo amor, e o amor pela vida. Foi por isso que Jesus de Nazaré afirmou que veio ao mundo para que tivéssemos vida em abundância, isto é, plena de amor.


Amílcar Del Chiaro Filho
Este artigo foi publicado na íntegra
pela Revista Católica MISSÕES - da Ordem Consolata.

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